Accountability
Aceitar, aceito, mas prefiro em DólarEra poeta nas horas vagas e beato nas horas duras. De uns anos para cá, andava mais poeta do que beato e tinha mais horas vagas do que tempo para se dedicar às suas pequenas causa trabalhistas. Estava recém-velho, daqueles velhos que ainda passam longe da morte, fazem piada sobre o dia derradeiro mas acham cada vez menos graça nelas.
Nelson resolveu ficar velho bem. Diminuiu o número de casos. Não parou, pois o ordenado (ele é dá época em que se falava “ordenado”) de um advogado aposentado não põe vinho chileno na mesa da ceia, e nem dá videogame pra neto no natal. Só decidiu que seu tempo era seu: queria ouvir papo agradável, comer coisa gostosa e ler todos aqueles livros para os quais um dia disse: “um dia eu leio”.
Os três primeiros anos de sua velhice foram na poltrona da sala, dedicados principalmente à leitura de poema, gênero que nunca conseguira saborear com atenção enquanto sua agenda era atribulada, apesar de achar encantador. Os três seguintes foram debruçados sobre a escrivaninha, o esboço de uma carreira literária. Nelson estudou um pouco de literatura por conta própria, aprendeu a diferenciar as escolas e entendeu porque gostava de uns autores e de outros não. Aprendeu, enfim, a engenharia da métrica poética e a dividir os versos em sílabas.
Na noite do último natal, enquanto os netos pequenos corriam pela casa e resto da família tomava vinho, Nelson lia um poema russo qualquer, e então sua esposa convocou. “Vamos rezar e fazer a ceia?” Sabendo de suas responsabilidades de patriarca, abandonou o russo sobre a escrivaninha e juntou-se aos outros em volta da mesa da ceia. Não gostou nada de ser interrompido em sua leitura. Gostava de natal, do ritual, das comidas e de confraternizar com os parentes, mas estava fascinado pelo ritmo do poema e não tinha sentidos para mais nada: olhava fixamente para o chester corado e rodeado por pêssegos, no entanto parecia não enxergá-lo. Sentia o cheiro do doce de figo reservado para depois, mas nem isso o atraia. Só queria saber do ritmo russo. Da batida do poema.
Todos de mãos dadas para fazer as orações. À sua direita o neto mais velho, à esquerda a esposa, que a essa altura já lera o evangelho, puxava o Pai Nosso. “Pai nosso que estais no Céu,” sete sílabas poéticas. Ou seriam seis? Checaria depois, com mais calma. “Santificado seja Vosso nome.” Passou a apertar com o dedão e o indicador a mão do neto quando o coro dizia cada uma das sílabas. Dez? “Venha a nós o Vosso reino.” Dez apertões também, e com pequenas aliterações. O rapaz não entendia e, no “Seja feita a Vossa vontade”, começou a se preocupar. Procurou o olhar do velho, mas não encontrou, estava fixo no chester, e a mão cada vez mais firme. Apertou de volta, o avô olhou. O moço levantou as sobrancelhas e os ombros ao mesmo tempo, foi suficientemente discreto para que ninguém na roda percebesse que perguntava “o que acontece”? Recebeu na resposta um leve e sóbrio aceno de cabeça, que interpretou como “calma, eu sei o que estou fazendo”.
“Assim na Terra como no Céu,” nove. “O pão nosso de cada dia nos daí hoje,” tem doze. Seria o caso de quebrar em dois versos? Nelson se empenhava na contabilidade e o neto simplesmente assimilava os golpes, respeitando o momento de êxtase do avô, até o Amém no final do Credo. Só depois do sinal verde, “agora podemos comer”, dado por sua esposa, o velho passou a enxergar o chester e os pêssegos, e tratou de reservar em voz alta sua coxa.
O natal continuou natal. Ceia, presentinhos, docinhos e vinhos, votos de bom ano e fortuna. Crianças com sono, um primeiro brinquedo quebrado, um copo quebrado, o fim de um CD e o silêncio em seguida.
Ao se deitar, Nelson fazia, na cabeça, a retrospectiva do belo dia em família, do ótimo ano de prosperidade e paz dentre os queridos. Lembrou-se, então, das contagens silábicas que fizera durante as orações em volta da mesa, tentou corrigir o que não estava certo, repetiu algumas das sentenças das orações em voz alta, para encontrar a divisão certa. Se deu por satisfeito, a não ser por um detalhe. Juntou as palmas das mãos e fechou os olhos: “Agora, valendo: Pai nosso que estais no Céu, santificado seja Vosso nome...”
