Colateral

Criou coragem. Tanta coragem que saiu descalço, apesar das blusas de lã e das duas calças que o frio exigia. Mas o motivo era nobre e, concluída a operação, os efeitos dessa irresponsabilidade se minimizariam, quem sabe.
Saiu para buscar lenha. Alguns tocos para alimentar a lareira que aquecia a casa. Não estava longe a pilha de pequenos troncos cortados há alguns dias, apenas alguns passos da porta. Nada de errado poderia acontecer, não é em um minuto com os pés frios e a cabeça sob o sereno que o resfriado derruba um rapaz sadio, como ele.
Segundo seus cálculos, seis daquelas toras bastariam para aquecer bastante o fim da noite e um pouco menos o começo da manhã. Deveria escolher estrategicamente os tocos: não poderiam ser os seis grossos, pois demorariam a entrar em brasa, nem todos finos, que carbonizariam em um instante e proporcionariam pouco tempo de conforto. Com o equilíbrio cético decidiu levar, então, dois galhos relativamente finos, dois do tamanho que mais se via na pilha, médios, e dois dos troncos mais pesados que encontrasse por lá.
Eleitas as amostras do combustível, o próximo passo seria levá-las para a casa. Complicou. Duas mãos para seis troncos. Duas viagens? Não compensaria: o abrir e fechar da porta causaria desperdício de uma pequena parte do calor que já habitava a casa, e ele julgou esses centésimos de graus celsius essenciais para sua sobrevivência na madrugada. Carregar a lenha como quem leva uma pilha de revistas, apoiadas no peito e nos antebraços? Não. Sujaria a lã da blusa, corria o risco de desfiar... Teve melhor idéia: com as mãos, mesmo. Três tocos em cada mão. É claro que conseguiria. É só segurar dois posicionados paralelamente em cada mão, com o dedo indicador entre eles para que não rolem, e depois arrastar o terceiro para cima dos outros, formando uma “pirâmide de base dois” em cada mão.
E assim fez com os tocos que levaria na mão direita. Acomodaram-se perfeitamente. Segurou mais dois tocos com a esquerda, um médio e um pequeno. Bastava, então, empurrar um dos grandes para cima deles, com o apoio dos já firmes na mão direita e voltar para o calor do lar. Arrastou. Julgou tudo firme. Virou-se para voltar. Foi traído pela canhota. A mão sempre abobada lhe deu a impressão de firmeza, mas deixou cair o maior dos tocos. Bem no peito do pé esquerdo. O toco não poupou e, podendo cair na horizontal, espalhando a dor pelo pé inteiro, preferiu cair na vertical e incidir com sua “quina” na pele do coitado. Ele só não gritou para não acordar a vizinhança, mas nunca respirou tão fundo quanto dessa vez.
Junto com o toco, caiu todo seu planejamento. Entrou na casa esbravejando e levando cinco peças, deixou a porta aberta e voltou para pegar o famigerado. Tudo errado. O frio invadiu o quarto e ele fez duas viagens, como tinha que ser desde o começo. Mas com o déficit de um pé inchado e rasgado, sangrando um pouco.
Não tinha gelo nem o aparato para curativos. Fez o que pôde: queimou as duas primeiras toras, depois mais duas, mais uma e, para se sentir bem e vingado, pôs por último o desgraçado. Ajeitou-o bem no centro da lareira, queria vê-lo sofrendo, gritando por socorro. Assistiu deitado e impiedosos ao começo da agonia do toco, até que adormeceu.
De manhã, espanto. Ainda estavam lá, meio chamuscados e envoltos por cinzas, três quartos maciços do maldito.
-Irresponsável!
Saiu para buscar lenha. Alguns tocos para alimentar a lareira que aquecia a casa. Não estava longe a pilha de pequenos troncos cortados há alguns dias, apenas alguns passos da porta. Nada de errado poderia acontecer, não é em um minuto com os pés frios e a cabeça sob o sereno que o resfriado derruba um rapaz sadio, como ele.
Segundo seus cálculos, seis daquelas toras bastariam para aquecer bastante o fim da noite e um pouco menos o começo da manhã. Deveria escolher estrategicamente os tocos: não poderiam ser os seis grossos, pois demorariam a entrar em brasa, nem todos finos, que carbonizariam em um instante e proporcionariam pouco tempo de conforto. Com o equilíbrio cético decidiu levar, então, dois galhos relativamente finos, dois do tamanho que mais se via na pilha, médios, e dois dos troncos mais pesados que encontrasse por lá.
Eleitas as amostras do combustível, o próximo passo seria levá-las para a casa. Complicou. Duas mãos para seis troncos. Duas viagens? Não compensaria: o abrir e fechar da porta causaria desperdício de uma pequena parte do calor que já habitava a casa, e ele julgou esses centésimos de graus celsius essenciais para sua sobrevivência na madrugada. Carregar a lenha como quem leva uma pilha de revistas, apoiadas no peito e nos antebraços? Não. Sujaria a lã da blusa, corria o risco de desfiar... Teve melhor idéia: com as mãos, mesmo. Três tocos em cada mão. É claro que conseguiria. É só segurar dois posicionados paralelamente em cada mão, com o dedo indicador entre eles para que não rolem, e depois arrastar o terceiro para cima dos outros, formando uma “pirâmide de base dois” em cada mão.
E assim fez com os tocos que levaria na mão direita. Acomodaram-se perfeitamente. Segurou mais dois tocos com a esquerda, um médio e um pequeno. Bastava, então, empurrar um dos grandes para cima deles, com o apoio dos já firmes na mão direita e voltar para o calor do lar. Arrastou. Julgou tudo firme. Virou-se para voltar. Foi traído pela canhota. A mão sempre abobada lhe deu a impressão de firmeza, mas deixou cair o maior dos tocos. Bem no peito do pé esquerdo. O toco não poupou e, podendo cair na horizontal, espalhando a dor pelo pé inteiro, preferiu cair na vertical e incidir com sua “quina” na pele do coitado. Ele só não gritou para não acordar a vizinhança, mas nunca respirou tão fundo quanto dessa vez.
Junto com o toco, caiu todo seu planejamento. Entrou na casa esbravejando e levando cinco peças, deixou a porta aberta e voltou para pegar o famigerado. Tudo errado. O frio invadiu o quarto e ele fez duas viagens, como tinha que ser desde o começo. Mas com o déficit de um pé inchado e rasgado, sangrando um pouco.
Não tinha gelo nem o aparato para curativos. Fez o que pôde: queimou as duas primeiras toras, depois mais duas, mais uma e, para se sentir bem e vingado, pôs por último o desgraçado. Ajeitou-o bem no centro da lareira, queria vê-lo sofrendo, gritando por socorro. Assistiu deitado e impiedosos ao começo da agonia do toco, até que adormeceu.
De manhã, espanto. Ainda estavam lá, meio chamuscados e envoltos por cinzas, três quartos maciços do maldito.
-Irresponsável!

3 Comments:
Caraca! Você sempre mandando bem em seus textos! Gostei. Nesse, vê-se um exemplo de que a paciência e a compreensão são uma boa, isto é, ter paciência, indo por partes para fazer duas viagens e compreender que, talvez, seria melhor perder um pouco de calor e não ganhar um dodói. HEHEHE.
Pô, de todos os comentários que recebi a respeito do último post, sobretudo pessoalmente, acho que a sua explicação é a que melhor se encaixa na situação. Acho que você acertou! Obrigado pelo comentário. Tenha certeza: será útil a mim. =)
Abraços, grande!
2:28 AM
despretenciosamente gostoso de ler.
visitar-te-ei por aqui, moço.
beijo!
9:52 PM
no fim das contas, o cara é seu miguxo ou nem?
4:33 AM
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