O blog mais despretencioso da América Latina

3/22/2006

Um Sábio

A nova Torre do Tombo, da qual nunca serei Guarda Mor


Vc q tc cmigo?
Qq vc vai fz esse fds?
Miguxa, tenhu orgulhu d nox duas!
Bjuxxx!
Estas foram expressões impensáveis há algum tempo atrás. E não é preciso voltar à década de 50 ou 60 para constatar isso. Basta analisar e-mails e os diálogos on-line que os internautas tinham há cinco anos atrás que já podemos constatar uma grande diferença no vocabulário e um índice maior ainda de mutações em palavras já existentes. Para discutir a vertiginosa mudança que sofre a língua portuguesa, trouxemos um de seus maiores entendedores de todos os tempos, Paio Soares de Taveirós, mundialmente conhecido por sua atuação como inventor da língua portuguesa escrita, entre os anos de 1189 e 1198. O início de sua produção literária inaugurou um período duradouro, de aproximadamente 350 anos, conhecido como trovadorismo. Nele aos textos se dividiam entre canções de Amigo, Escárnio e Maldizer. Nessa entrevista exclusiva à REVISTA JASON BLAIR & AMIGOS, Taveirós nos conta como encarar mais essa mudança pela qual passa a língua portuguesa, fala de política e sua nova empreitada literária.

Jason Blair & Amigos: Você consegue entender o que as pessoas andam escrevendo nas conversações por Internet?
Paio Soares de Taveirós: Infelizmente consigo. Esse tipo de mensagem, queiramos ou não, faz uma associação unicamente fonética dos vocábulos da língua portuguesa. O alfabeto é usado com base em sua eficiência e numa lei de menor esforço. E já que a lei é do menor esforço, é claro que entendo, se até os apedeutas que vêm desenvolvendo-a entendem, por que não eu?

JB&A: Como o senhor mesmo disse, essas mudanças são de cunho fonético. No entanto, acha que esse novo modo de escrever a língua portuguesa deve ultrapassar o âmbito virtual, de mensagens rápidas por Internet?
PST: Creio que tenha um certo potencial para se alastrar, mas não vai muito longe. Não passará da comunicação por bilhetes entre os que entendem os mesmos códigos.

JB&A: O que quer dizer com mesmo código?
PST: Um exemplo. Nesse fim de semana entrei num fórum de discussão sobre o paisagismo no Paraná e alguém lá escreveu a “palavra”, (se é que podemos chamar assim), “metherox”. Eu não sabia o que era, não tinha o menor palpite. Mas um certo freqüentador da página se enfureceu, pois inferiu que esse conglomerado de letras era mais um nome para “pênis”. E não era! Era uma aglutinação, juntando duas palavras: métodos heterodoxos. Nada a ver com o órgão... isso quer dizer que se uma pessoa que freqüenta diversas tribos da Internet, pode topar com diferentes significados para certas palavras ou siglas.

JB&A: O senhor acha que nesse processo há um abuso das siglas?
PST: Sim. Mas não descarto a hipótese de que isso acompanhe um movimento cíclico, como o que aconteceu com os primeiros sinais de escrita rupestre: o homem da caverna desenhou um boi, depois um cavalo, depois uma vaca e mais tarde viu a necessidade de representar inúmeros animais com praticamente o mesmo porte. As representações passaram, então, a não se diferenciar facilmente, eram todas muito parecidas, a não ser que o desenhista investisse um pouco de seu tempo desenvolvendo o desenho. Criou-se então um novo ícone, que vinha antes do desenho, para diferenciar o macho da fêmea, por exemplo. Com o tempo a gama de ícones descritivos aumentou tanto que chegamos no alfabeto, mais ou menos como conhecemos hoje. E o que eu quero dizer com tudo isso, você me pergunta. Ora, que a sigla “FDS”, muito usada na Internet para representar a expressão “fim de semana”, um dia vai representar tanta coisa diferente que será necessário inserir novas letras entre essas iniciais. E logo não será nada mais prático usar esse código, escreva logo a palavra toda!

JB&A: Mas o senhor, que começou a carreira em 1189, já presenciou várias mudanças significativas na língua. Em seu poema de estréia, A Ribeirinha, escreveu:

“E, mia senhor, dês aquel dia, ai !
me foi a mi mui mal.”


No entanto, uma leitura tomando como base o léxico atual, pode resultar em desentendimentos...

PST:
Você está dizendo que a palavra “senhor”, nesse poema, se refere a uma moça, e hoje em dia seria a um homem... pois bem. Essa é uma questão um pouco mais complicada do que parece. A partir do momento em que o sufixo “a” é acrescentado para designar o feminino da palavra, inicia-se aí um fenômeno social. É sabido de todos que as maiores sociedades primitivas se organizavam de maneira matriarcal, e o aparecimento desse sufixo no século XIII acaba com qualquer possibilidade de perpetuação dessa tendência. (Note que mesmo em 1189 meu texto já é carregado dessa influência. Mesmo com o eu-lírico masculino, o primeiro verso diz:

No mundo non me sei parelha” ,

Quer dizer, mesmo resistindo, já fazia uso dessa divisão abominável.) O resto da história todo mundo já sabe, e felizmente o cenário tem, mudado de 1950 para cá. Agora, a mudança não tem uma só direção. O movimento feminista faz um brilhante trabalho de recuperação desse espaço, mas outro ponto a ser observado é a a revolução na opção sexual da juventude de hoje em dia. O homo, o hetero, o bi, o metro, o über, o trans, o pan e o undersexualismo se confundem em uma zona cinzenta, e logo vejo o fim da partícula “a” para designar a palavra feminina, ou então o uso arbitrário.

JB&A: O senhor acompanhou a concepção do recém inaugurado Museu da Língua Portuguesa?
PST: Não e não sei de nada sobre isso.

JB&A: Mas por quê?
PST: Por ser um museu da língua, acho que eu, o seu primeiro escritor, merecia um destaque maior. Creio que sejam as questões políticas. Queira ou não, no âmbito da política cultural Brasileira ainda há um grande receio de se desligar ideologicamente dos gurus, no caso Gilberto Gil e em menor escala, mas de uma maneira singular Aldo Rebelo. Não me alinho a eles, portanto sou deixado de lado. No início dos projetos eu ainda estava engajado, mas depois da escolha totalmente parcial de Fernão Lopes para a gerência do museu, fiz questão de sair de cena.

JB&A: Acha a escolha de Fernão Lopes equivocada?
PST: Acho. O problema é que são sempre os mesmos. O Fernão tem sido, desde 1418, quando foi agraciado com o título de Guarda Mor da Torre do Tombo, beneficiado com cargos de confiança. Não tenho nada contra ele, a pesar de seguirmos correntes totalmente diferentes (ele decretou o fim do trovadorismo em sua primeira gestão). Só não concordo com o modo que as coisas são feitas por aqui. Além do que, com esse sistema vigente, era mais do que anunciada a falência do ensino médio, o que leva, entre outros equívocos muito mais graves, à uma grande confusão entre meu nome e o dele. Nunca fui Guarda Mor da Torre do Tombo, como muitos juram que fui....

JB&A: Seu problema com Aldo Rebelo se refere à proposta de reforma da língua?
PST: Basicamente sim. Discordo totalmente do modo com que ele pretendeu a condução da reforma.

JB&A:
Basicamente é isso? Algo mais?
PST: Basicamente é, mas tem ainda outras questões, de cunho pessoal, que não quero abordar aqui.

JB&A: Agora, o futuro. Em que tem trabalhado?
PST: Há uns 5 ou 6 anos eu venho fazendo pequenos trabalhos para editoras do interior, mas tenho me focado em um novo romance, que fala sobre um amor desencontrado na cidade grande e as dificuldades de relacionamento num mundo tão multifacetado. Estou estudando a melhor proposta editoria, mas ao mesmo tempo já estou até negociando o roteiro com uma produtora belga, e talvez a história saia no cinema uns três meses depois do romance. Mas, na minha idade, já não acho tão pertinente falar em futuro...




A Ribeirinha

No mundo non me sei parelha,
mentre me for como me vai,
ca já moiro por vós - e ai!
mia senhor branca e vermelha ,
queredes que vos retraia
quando vos eu en saia!
Mau dia me levantei,
que vos enton non vi fea!

E, mia senhor, dês aquel dia, ai!
me foi a mi mui mal,
e vós, filha de do Paai
Moniz, e ben vos semelha
d'haver eu por vós guarvaia ,
pois eu, mia senhor, d'alfaia
nunca de vós houve nen hei
valia d'ua correa.”


Paio Soares de Taveirós