Título: é o que amo
Imagem sem título, de um artistinha que tá despontando por ae, do qual sou o mecenas.
Se tem algo realmente complicado no ofício de um escriba é dar títulos. Melhor: ou você escreve ou você dá títulos. E todos que escrevem deveriam ter alguém que desse títulos a seus textos. Geralmente, se o pretensioso tenta acumular as duas funções, um trabalho acaba estragando o outro. Um péssimo título destrói um belo texto e o contrário também.
Tenho 35 anos, não sou velho para despontar como um grande escritor. Mas também já não conto com o vigor juvenil do começo de carreira. Depois de quase 20 anos tentando a carreira literária, (comecei aos 14, com poeminhas de adolescente apaixonado...) enfim reconheço que não estou apto. Não totalmente. Com modéstia: escrevi três romances, o primeiro é sempre o primeiro, teste, o segundo saiu legalzinho até, mas o terceiro, sinceramente, é um senhor dum romance. Trata de um publicitário meio corno, meio poeta e emotivo, sabe? Eu gosto... bom, mas voltando à minha carreira. Percebi que não teria muito sucesso como autor, mercado saturado e tal, mas, em um momento de epifania, saquei que sou muito bom de títulos! Muito bom mesmo!
O terceiro dos meus romances se chama “Sublime Retirada”. O segundo tem o nome de “Carcará Meliante”, e o primeiro é o “O Caroço Oco”! Não é genial? Perceberam as curvas opostas? Conforme eu melhorei o texto, piorei o título! Não foi fácil perceber, mas está nas nossas caras.
Felizmente consegui diagnosticar antes do pior acontecer. E o que eu fiz? Fui esperto. Parei de escrever, na hora em que enxerguei o sistema. Fiquei um ano sem pegar na caneta, pensando em esquecer como se escreve. Queria ser analfabeto de novo, mas claro que não cheguei a tanto. Não importa. O que interessava era piorar o meu texto, para poder melhorar meus títulos e criar a nova profissão do futuro: o TITULEIRO! Eu, Daltony do Espíryto Santo, sou o primeiro tituleiro do mundo!
A arte é sábia. Consiste basicamente em ler o que será entitulado, (que daqui para frente chamarei de titular,) pensar em algo completamente oposto, divergente e nada a ver com o titular e tentar aproximá-lo semanticamente do que poderia ser um resumo do titular, não a ponto de deixar o título próximo dele. Na Escala de Disparidade Semântica, que eu mesmo criei nesse processo, o título deve sair do 100% e caminhar até o 63%. Ou seja, o título deve “destoar” 63% do campo semântico do titular. É claro que esse valor é uma aproximação que permite variações.
Calcular a variação também é um processo simples. Desenvolvi para isso a Tabela do Coeficiente Temático. O que quero dizer é que, dependendo do intuito, estilo, corrente, aplicação e temática do texto existe um valor adequado pare ele na Escala de Disparidade Semântica. Por exemplo, se o titular for uma tese de doutorado não pode ter um título com grau de disparidade semelhante ao aplicado a um conto de realismo fantástico, por exemplo. Mas nunca pode chegar ao triste 0% de disparidade, pois isso quer dizer que o título nada mais seria do que uma simples síntese do titular.
Na minha carreira de TITULEIRO já fui contratado por diversos figurões da literatura nacional e até internacional. É claro que eles pedem sigilo absoluto, o que eu concordo que deve ser respeitado. Como o público reagiria se soubesse que Paulo Coelho não batiza seus textos? Mas funciona assim: sou contatado pelo escritor, que me passa o original da obra sem título. Leio. Caneto. Faço minhas ponderações e sugestões, se tiver liberdade para isso (na maioria dos casos sinto que tenho, afinal sou o padrinho do texto), e, de acordo com minhas sensações e interpretações do texto, trabalho na elaboração do título.
Na verdade o título sempre foi desqualificado, renegado ao esquecimento, se comparado ao grosso da obra. Por isso mesmo sempre surgiu em um “estalo” uma primeira idéia. Os autores nunca se esforçaram em sua confecção, que pode E DEVE levar de uma a três semanas para maturar.
Concluo então que devemos valorizar essa arte. O valor dos títulos é algo incomensurável, insuperável e que merece respeito. Você pode achar estranho, mas hoje NÃO SINTO A MENOR FALTA DE TEXTOS! Não tenho vontade nenhuma de escrevê-los, me afundei em meu ofício.
A propósito, estou criando uma apostila e um curso para TITULEIROS, o pioneiro “Daltony do Espíryto Santo Titulação e Criatividade”. Creio que vocês da juventude blogueira e fotolegueira do Brasil tirarão muito de meus ensinamentos, afinal precisam de ao menos um título por dia. Comece já a bolar o título de seu post do mês que vem, ele merece esse tratamento carinhoso.
Me sinto um cara feliz e realizado por ter encontrado meu nicho, minha ocupação e meu modo de contribuir com a sociedade. Obrigado por dividir isso comigo!
Abaixo alguns dos melhores títulos que inventei. É claro que estes não batizaram nada, pois vocês saberiam quem é o autor e não quero isso. São apenas títulos muito bons que inventei, e que pretendo compilar eum dois volumes no ano que vem. Espero que gostem!
Abraços, Daltony do Espíryto Santo.
“Sangue de Irmão”
“Levante e Lembre-se do Furacão”
“Os Guindastes da Berlin Oriental”
“A Incrível História do Rapaz que Engoliu Pasta de Dente”
“Tromento”
“O Guarda-Chuva de Elói”
“Gates of Okhotsk”
“De Quando Brindamos Felizes”
“Savana”

7 Comments:
IUAHAiuhaIUAhiuAHAiuhAUI
Boa! Daltony é o cara!
11:03 PM
Rapaz! Reamente essa profissão é deveras útil. Afinal, o que seriam dos filmes pornôs sem seus nomes? Quem compraria um filme pornô que não tivesse o nome de, por exemplo, "Metrix", ou "A Puta de Blair".... Outro exemplo de um grandioso trabalho de algum tituleiro pornô é o título "Rocco VS Silvia Saint".
Esse vendeu.
10:50 AM
Amore, vc quer colocar SEU título no MEU texto?
Huahuhauhaah...
Texto muito bom, como sempre!!
Bjaum
6:09 PM
clichezaçooo
5:37 PM
...mas com uma série de honras
5:44 PM
eu já li umas vinte e seis vezes. Hora de trocar.
aproveite as férias.
3:19 PM
Também acho que passou da hora de trocar.... eu li esse umas 800 vezes...
Tô ansiosa pra ler um texto seu....
9:01 PM
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