O blog mais despretencioso da América Latina

7/19/2005

Uma andorinha só não faz verão.


monotemático? talvez...

um porco na gaiola, sob o efeito de drogas

“Mãe! Venha ver!”
“Que que foi, Cálsio...” Isso mesmo, esse era o nome do garotinho de 6 anos que se espantava com visita tão inesperada naquele momento.
“Vem ver, mãe! Logo!” E Inês foi. Não porque realmente se interessava em saber o que o garoto tinha a lhe mostrar, mas sim porque leu em alguma dessas revistinhas que “nessa fase a criança é carente, procure demonstrar atenção às pequenas coisas pelas quais ela se interessa.” Deixou de lado a mesma revista, suspirou e foi.
Chegando à sala, uma salada de emoções. Um “Ai! Meu Deus!” de espanto, um “Que gracinha”, pois o bicho era uma gracinha mesmo e em seguida uma série de pensamentos característicos das mães/chefes-de-casa/urbanas/racionais/ocupadíssimas: “Como vou tirar esse bicho daqui? Vai quebrar o vaso! Vai sujar o chão! Ai! Minha cortina! Meu lustre! Vou atrasar para a yoga!”
Pensou um pouco no procedimento para tirar aquela andorinha da sala. Correu pegar uma vassoura e fechou a porta. Cálsio ficou lá, sozinho e tentando agarrar com as mãos a ave desesperada, que cabeceava o vidro da porta/janela da sacada. O menino se divertia, pulava e buscava a andorinha, claro que não conseguia, mas tentava. Seu sorriso era prazeroso de ver, os olhos não paravam no lugar, ziguezagueavam pelo teto da sala atrás da presa.
Inês voltou e, sem perder tempo, pôs a piaçava para trabalhar. “Para trás, Cálsio! Mamãe vai tirar o passarinho de casa!” Três vassouradas no teto, duas na parede e nada. A andorinha já se cansava, mas persistia. O menino, vez ou outra, tentava com seus pulos agarra-la, mas além de não conseguir era reprimido pela mãe: “Pára, menino! Fiquei quieto aí que a mamãe sabe o que faz!” Sabia tanto sabe que derrubou uma natureza morta da parede com a vassoura. Cálsio riu, é claro, e recebeu um olhar demoníaco da mãe. Ficou quieto tentando se conformar com a surra que levaria depois da expulsão.
Mamãe desistiu da vassoura. Outros métodos lhe pareciam inviáveis e não podia perder sua aula de yoga. A solução foi pacífica: manteve escancarada a porta da sacada e cobriu a mesa de centro com um lençol velho, para que os bibelôs europeus não fossem bombardeados. Esqueceu-se de propósito do abrigo para os sofás, afinal já estavam desbotadinhos, uma cagada seria bom motivo para trocar o forro...
Sim, fugiu da batalha. Yoga era álibi. Nem gostava tanto assim. Fechou a sala, beijou a cabeça do filho e se foi.
Os olhos de Cálsio brilharam. Diversão travestida de trabalho para a tarde toda. Estava disposto a se aleijar para expulsar o bicho. Começou sua correria, pulava e tentava agarrar, exatamente do mesmo modo que fazia antes. Foram mais cinco minutos de esforços extremos de ambas as partes até que a andorinha descobriu a diferença entre o vidro e sua ausência e se libertou, horas antes do fôlego do garoto se acabar.
Cálsio vibrou realizado. “Uau! Nem demorei muito pra tocar ela pra fora! Sou bom nisso!” teve que achar outra ocupação, mas nada lhe tirava da cabeça a aventura com a andorinha.
Inês voltou, retirou o lençol. Nada de merdas n os sofás, não sabia se era bnom ou ruim. Foi tomar banho. Sérgio chegou do trabalho. “Papai! Você nem imagina o que aconteceu! Entrou um passarinho na sala e eu que expulsei ele! Foi assim: eu pulei e...” O herói foi interrompido de surpresa. “Que bom, filho. Estou orgulhoso de você.” Sérgio sentou no sofá, tirou os sapatos, chutou sem querer uma bonequinha húngara de palha e abriu aquela mesma revista.