5/12/2005
um pouco de andorinhas
Depois de momentos de esforço dobrado para alcançar os demais, ela, que tinha se desviado da rota original, chega afoita. Na verdade precisaria de alguns minutos sentada em qualquer lugar, mas o grupo deve seguir sua viagem e ela concorda em ficar no final da formação em V que costumavam adotar. Batia suas asas o mínimo possível.
Anoiteceu e pararam. O local escolhido foi, como de costume, o mais alto da cidade. Nela havia um punhado de prédios, mas eram construídos em um vale. O lugar de maior altitude era uma pequena colina, marco do início de uma serra ao sul da cidade, que seria transposta na manhã seguinte. Uma construção de apenas três andares era o topo da região, e era lá mesmo que as andorinhas passariam a noite fria.
Algumas delas ficaram responsáveis por achar um pouco de comida por perto, o que não seria tão difícil. Outras montavam guarda no beiral oposto, enquanto a maioria descansava apoiada no beiral eleito, enfrentando o vento gelado e contemplando os pontos brilhantes lá embaixo.
“O que aconteceu com você? Por que ficou tanto tempo para trás de nós?- perguntou a mais gorda delas à que se perdera.
“Vocês não vão acreditar! Tive uma experiência terrível! Fui abduzida por seres humanos! Ou algo assim...”
Ela, nervosa, não soubera escolher o termo correto. Nesse momento todas as cabeças se voltaram em sua direção, e os olhos cresceram mais ainda.
“O quê? Como assim? Conte-nos!”
As dezenas de andorinhas se aproximaram da vítima do incidente e esta começou a contar-lhes a história desde o começo. O grupo desrespeitou o protocolo e em vez de manterem-se em fila ao longo da borda da construção formaram uma roda para ouvir a odisséia da companheira. As responsáveis pela vigilância deram de ombros para o perigo e as larvas capturadas para a ceia escaparam com pouco esforço.
“Bom, em um certo momento eu me cansei, queria parar por uns segundinhos e logo voaria atrás de vocês. Então eu avistei um monte de plantas bem lá no alto, na altura que a gente voava!”
A andorinha mais experiente do grupo antecipou-se e esclareceu as demais:
“Já vi isso também. É raro ocorrer um fenômeno desses nessa região. Chama-se ‘sacada’!Algumas têm vegetação vasta, mas o mais normal é que tenham apenas uma samambaia ou outra.”
Andorinhas se entreolhavam e confessavam umas às outras já terem visto o tal fenômeno. A perdida então continuou.
“É isso mesmo! E aquele jardim suspenso era tão rico... tinha tulipas, orquídeas recém desabrochadas e umas azaléias tão delicadas... eu não resisti e decidi parar por lá. O vaso de margaridas tinha até umas larvinhas gordas e fáceis de pegar, comi um pouco. Mas então o sol começou a me atrapalhar e pulei para o vaso da Espada-de-são-jorge, que estava mais afastado um pouco, tinha uma bela sombra e não batia tanto vento... depois eu vi um xaxim com uma begônia que tinha um pouco de água empoçada. Achei estranho, pois era um lugar coberto e fiquei pensando como a água parou lá...”
A andorinha sênior mais uma vez dividiu toda sua experiência com as demais.
“Isso é fruto da ação humana. Eles, sabendo que as plantas precisam de água para sobreviver, molham as que eles mesmos põem debaixo de alguma cobertura. A esse procedimento dá-se o nome de ‘regar’.”
Concluída a nota, continuou a outra.
“Pois bem. E no momento em que tomava um pouco daquela água apareceu uma pessoa! Ela passou a menos de um metro de mim, em direção ao céu azul. Eu fiquei quieta no meu canto...”
“Você estava com medo?”
“Não... só me protegi né... vai saber de que é capaz uma pessoa!”
Algumas ensaiaram uma risada de deboche, mas, assim que percebeu, a andorinha-chefe interveio reprimindo-as.
“De que riem? Vocês não sabem o que se passa na cabeça de um ser humano! Muito certo fez nossa companheira em se acuar, pois mesmo sem querer os homens podem nos causar danos gravíssimos!”
Já cansada das sábias intervenções da mais velha a outra interrompeu bruscamente o conselho.
“E aí ele andou até o meio das plantas, puxou um negócio e foi embora. Pensei então que a melhor opção era sair logo de lá, mas quando tentei voar em direção ao azul do céu algo me impediu e eu caí no chão! Eu conseguia ver o céu e as plantas todas, mas não conseguia passar daquele ponto. Era como se tivesse uma barreira invisível.”
E deu-se mais uma interrupção explicativa.
“Isso é uma coisa há muito estudada porém nunca compreendida pelos pássaros. O que realmente é não sabemos ao certo, mas sabemos que se chama ‘vidro’.”
“Então era isso mesmo que eu não conseguia transpor! Achei então que deveria tentar pelo outro lado, e adentrei o desconhecido. Não deu muito certo. Era tudo muito pequeno, não dava para voar direito. Duas batidas de asa e eu trombava com uma parede branca! Mais duas e trombava com uma cadeira, ou sei lá como isso chama. Subir também não dá, é tudo fechado, e tem lugares em que você nem vê a luz do sol! Dá um desespero... Fiquei por lá,batendo minha cabeça em tudo o que é lugar sem conseguir sair por um tempão. Ainda bem que não tinha nenhuma pessoa mais por perto. Depois parei para pensar e voltei ao vaso de azaléia... eu olhava para as orquídeas e batia no tal do vidro... resolvi esperar um pouco, fiquei no vazo brigando com uma minhoca chata e escrevendo na terra enquanto ninguém desligava aquele vidro... O sol já estava quase posto quando chegou alguém e tirou o vidro. Na mesma hora eu já saí voando. Percebi que a pessoa se assustou e tentou me bater com alguma coisa, mas no conseguiu, fui mais rápida e vazei logo!”
Depois de contada a história as andorinhas todas tomaram seus postos, mas o comentário era geral, em todo canto ouviam-se comentários sobre o caso. Algumas mais novinhas nem dormiram aquela noite.
Na manhã seguinte continuaram seu vôo rumo à serra, e na hora de montar a formação em V a coletividade das andorinhas reservou, sem titubear, para a aventureira o lugar à direita da líder. Esta olhou de lado com o semblante sério e passou a temer por seu posto.

