O blog mais despretencioso da América Latina

3/31/2005

Molecagens

E seguia a procissão. E o moleque ainda matutava a molecagem de domingo. Bombinha, bexiga d´água, animais... Ainda não sabia. Teria que esperar o melhor momento, a hora em que assustaria o maior número de velhinhas beatas e clérigos. Mas ainda não sabia nem o que nem que momento. Por enquanto só acompanhava, no ritmo das senhoras.
O comboio dobrou a esquina. Preocupado, o moleque procurava o olhar do menino, seu comparsa, do outro lado da massa de gente e velas. Não achava. Enquanto isso chutava cascas de ovo e pó de serra.
Começava a chatear-se. Ratos? Baratas? Alarmes falsos? Nenhuma sugestão vinha do lado de lá., e o menino também parecia desanimado.
Chutou por mais três quarteirões o Corpus Christi, e a igreja Matriz se aproximava. Mais um quarteirão e o moleque pisou o primeiro degrau da escadaria. Olhou para o outro lado e o menino tinha sumido. Faria sozinho? O que faria? Não faria, nada. Desceu a escadaria cabisbaixo assim que o padre adentrou a igreja. Desistiu da molecagem e sem querer salvou a missa.

3/22/2005


condomínio dos deuses

Mais ou menos assim dizia Homero

...então, como que trouxesse à vida novo guerreiro, muniu-se Sátiro de fina adaga pelo mais sábio artesão trabalhada, e nos delicados pé de guerreiros vestiu sandálias de couro novo. Sentindo-se preparado, bradou após a prova de rubro vinho:
-Sê, ó subordinados de parca esperança, ferramenta do tão louvado Cratso, filho de Protelou, o assassino perdoado de Ofésio, pois nem um mísero jarrão de terracota do reino desse apedeuta, após árduos anos de servidão que sofreu nossa honrada estirpe, se faz digno de ocupar tão fértil solo. Mesmo tendo Ofésio, filho do divino porcariço já junto aos seres de além outra morada, seja esta farta de saborosos banquetes, ou aquela reservada aos ingratos em terra, nada que lembre período de tão amargas primaveras deve se achar de pé ao raiar da fina aurora de prateados dedos.
Assim falou ele, e rogando pela proteção da divina Mimo, retornou tomado por funesta desconfiança seus afazeres matutinos.
Verião, que em meio a faustosas nuvens a tudo assistia do solar dos deuses, furioso se fez ao presenciar tamanho desrespeito para com seu outrora preferido, o finado filho do divino porcariço, Ofésio, tomou-se por ira magnífica, e ao estalar de seus dedos se fez a tempestade de ensurdecedores ventos sibilantes na costa da ilha.
-Malgrado esses que avistam meus olhos! Nem tempo teve o coevo e dileto pupilo que tanto talhei de ser velado com os merecimentos de astuto governante, eis que nem se faz a penumbra e seu opulento reino se vê pilhado por injustos maltrapilhos! Oxalá estivesse ao meu lado o grandioso Dúper, filho ditoso de Taconomeu, a quem não faltam cacoetes no trato com presunçosos piratas, sentiriam a profunda agulha do arrependimento a cada tijolo que derrubarem, santuário que desrespeitarem e novilho que aleijarem esses maléficos sanguessugas!
Mal alcançavam o chão as primeiras lajotas derrotadas pelos fortes braços furiosos da horda de dedaianos, fez-se visível a fúria secular de Verião, e nada que o deus dos ares quisesse ver rodando em furacões houve de permanecer onde se encontrava. Nem mesmo os púlpitos, gárgulas e as casamatas resistiram a tão descomunal ira divina.
Enquanto a desordem era produzida, acordava na soleira do refeitório sagrado dos céus a formosa Hestra, filha bastarda do grande Cratso, que nem um sequer garrote haverá de possuir após a retirada desse, pôs-se prostrada diante de tal hecatombe.
-Por 101 camarões! Não merecem esse bravos guerreiros a morte certa que lhes traz o furacão! Logo estes, que nas árduas batalhas contra os Bósolos pela posse de Ímota com o sangue defenderam nosso reino! Não! Hei de cercear tal despautério! E antes que pudesse o furacão completar mais uma rotação, cederam ao chão, por força da misteriosa potência bastarda, os exaustos os materiais e seres atingidos.

3/09/2005


Capa do CD "Feeling Sorry for the Last Night?", do The Trashcan Holders. Guardem esse nome.

Um post tradicional: UM POST

Vou falar de música. Chad Fraser, Orlando Casillas e Jerry “Lizzard” Bernardino. Um estadunidense e dois mexicanos, por volta dos 25 anos (desculpem a imprecisão,) habitantes de Fort Huachoca, divisa entre o estado americano do Arizona e o México. Esses senhores formaram no ano de 2001 a banda The Trashcan Holders.
Acho que o termo certo para definir o som é “preciso.” É do jeito que eu gosto, e sou chato pra caramba quando tratamos de música. Não tem aquele negócio de virtuosismo, guitarrista metido a sabichão, solo de baixo ou desafios às leis da física por parte do baterista. Tudo bem simples, riffs de guitarra curtos e repetitivos (assim como os refrões das letras), bateria pesada e crua, baixo distorcido e discreto.
No Brasil, nada. Um ou outro já baixou pela internet. Sucesso somente na região de onde vem e um pouco na europa. Recentemente, no site da BBC de Londres, o atacante turco Hakan Sukur, que joga em um time da Escócia, declarou em uma entrevista que The Trashcan Holders é sua banda preferida... Ótimo, não?
Não sei como classificam por aí o estilo da banda, mas acho que se aproxima mais do “stoner rock,” (bem comum nessa região, e cujo expoente mais visível é a ótima banda Queens of the Stone Age,) a pesar de um tanto bom do grunge dos anos 90.
A voz de Chad é bem das clássicas, se é que existem vozes clássicas: lembra Cris Cornell, do Soundgarden e Audioslave, que por sua vez remete a Robert Plant, do Zeppelin... e acho que isso é voz clássica então chamo assim. (Afinal, o que é clássico?)
Já as letras não seguem alguma certa linha o CD todo. A maioria delas usa de expressões inusitadas, muitas vezes sem sentido e com um bom tom de ironia. Outras são ácidas, coisa de cara frustrado. A cada música uma nova frustração: mulher, grana, e probleminhas cotidianos; nada de crises existenciais em nome da humanidade, com se vê por aí. Abaixo vem a letra da faixa 7 do CD, chamada “Towel,” fossa mesmo:


Why are you looking at me like this?
Don´t remember what you did last night?
I was trying so hard, but now it´s messed up
Girl, you know I´m mad, don´t stare at me anymore
My mind is not that simple, it comes from the core
Sitting by the bar I whipe some tears
And spend a few hours remembering that

You made me throw the towel
You made me throw the towel
You made me throw the towel

So get away from here
I cannot stand these feelings
Looks like I´m lost in a corn field
Well, it´s not true, there are some friends around
Who could lend me a guiding hand
But you don´t seem to be so pleased
There´s something annoying you
Maybe you can´t accept that

You made me throw the towel
You made me throw the towel
You made me throw the towel

É minha sugestão de Páscoa. Baixem pelo menos umazinha na internet. Tem de graça no site: www.thetrashcanholders.com.