Lá vamos nós...
Período de entressafra. Nada nesse blog desde dezembro e não me preocupo. Estive fazendo coisas agradáveis também...
andar na linha
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Depois de quatro anos participando das peneiras do São Paulo, Flamengo, Palmeiras, Santos e Guarani, o exímio lateral esquerdo achou o clube que o levaria à glória: o Radium, de Mococa.
Quando um clube admite um garoto de 18 anos em seu time principal, não é de se espantar que o chamem de “O Novo Fulano”, geralmente o dono da posição na seleção brasileira, ou a mais recente transação milionária para o exterior. Com Gilmarzinho não foi diferente: “O Novo Roberto Carlos...”
Sim, batia uma bola redonda, um craque para o que se propunha o time, subir para a série B1 do Paulista. Mas é aquela história... Um eventual “Novo Roberto Carlos” daria mais o que falar do que o tímido ruivinho que vestia a três do Radium. Ou pelo menos teria passado na peneira do Guarani...
Era esforçado o menino. Preparo físico invejável, fôlego de sobra e visão de jogo apurada. Tão apurada que, já na primeira semana de treino em Mococa achou seu lugar no campo: a extrema esquerda, onde a arquibancada e sua cobertura fazem sombra no período da tarde. Nada bobo. Não faria bem para sua pele a exposição prolongada aos raios de sol. Não faz à pele de ninguém, mas o moleque era branco pra valer, nele faria mal maior.
Seu emprego foi salvo pelo esquema tático, que coincidentemente exigia um lateral correndo sobre a linha limite do campo mesmo. O técnico se orgulhava da obediência do pupilo, e se gabava do respeito que este parecia lhe prestar. Medo do sol, apenas.
Já se sentia dono do oásis quando acabou o período de treinos da pré-temporada. Treinaram ata a sexta, e o Radium estrearia na próxima quarta-feira contra o Vossem, de Assis, em casa. Entre sexta e quarta folga para jogadores e gramado. Ninguém pisaria no campo, até onde se sabia.
O marasmo proporcionado pelo recesso foi a brecha: Entre sexta e domingo apenas rodearam, analisaram. Na segunda se decidiram pela instalação ali e ali se instalaram. Na quarta-feira o casal de quero-quero já se sentia dono setor esquerdo do gramado. Tinham um ninho e viviam felizes, certos de um sossego duradouro.
A família no estádio, como querem as autoridades e os pipoqueiros, os times em campo, como deve ser. Ou não deve? Voltando de um passeio no parque, o casal proprietário do imóvel se espantou com a movimentação. Às duras penas conseguiram pousar atrás de um dos gols. Quando o Vossem atacava, os pássaros ousavam uma aproximação de seu ninho no oásis, que logo era interrompida pelo contra-ataque do Radium.
Gilmarzinho estava no sol, do lado em que não se sentia tão à vontade. Mas no segundo tempo eles iam ver! Na sombra ninguém pega o Gilmarzinho!
Os donos do local não aquentavam mais a invasão. Finalmente veio o intervalo e puderam voltar para o ninho, para se recuperarem do susto. Quando se achavam sãos, volta a tropa. Sem saber o que fazer, os dois correram para trás do gol. Esperaram cinco minutos até não dar mais para suportar: “Chega! Temos que tomar uma atitude! A terra é nossa, não podem invadir assim, com essa brutalidade!” exclamou fabulosamente o quero-quero macho, e se preparou para agir.
Ataque do Vossem. Cezão, o zagueiro do Radium corta sem a mínima categoria, num chutão qualquer, que por sorte cai nos pés de Frido, o Matador de Mococa. Nesse momento, Gilmarzinho nada tinha a fazer, correr seria inútil, ajudaria a zaga no próximo ataque assisense. Mas enquanto isso aproveitaria de sua tão amiga sombra.
Cansado, apoiou com as mãos nas coxas.
Injuriados, miraram nos joelhos.
Respirando fundo pôs as mãos na cintura, enquanto acompanhava torcendo o contra-ataque.
Com sangue nos olhinhos, levantaram um vôo quase rasteiro, mas preciso. Como combinado, atacaram impiedosamente o joelho direito do lateral esquerdo. Pareciam querer matar o joelho, esse ser repugnante.
Gilmar caiu, gritava, esperneava horrorizado, como uma criança sedentária. A torcida, perplexa, não sabia como reagir. “Oh?” “Minha virgem santíssima?” “Caralho?” O que gritar? E o juiz? Apitaria falta? E o massagista, o que faria? Ninguém soube, e nada fizeram. A vítima em desespero saiu correndo com as poucas forças que lhe restavam, mas os demônios não a deixavam em paz, o acompanhavam comendo seu joelho até o osso.
Quando sentiram que o perigo se afastara (Gilmar entrou em um consultório odontológico do outro lado da rua para se abrigar,) os passarinhos voltaram para o estádio. Tudo igual. Em vez de 22, agora eram, temporariamente, 21 uniformizados a tirar-lhes o sossego. “Vamos desistir disso,” confabularam. E foram morar à beira de uma nascente, ambos se perguntando por que não tinham encontrado esse paraíso antes...
O joelho de Gilmarzinho nunca mais foi o mesmo. Sua cabeça também não. Pensou, pensou e decidiu abandonar o esporte. O plano de assistência médica do time dava ao “aposentado por invalidez por decorrência do exercício do ofício” uma bolada, que Gilmar usou para comprar um bar. O bar do lado de lá do estádio, “Bar do Gilmar Quero-quero” que vende refrigerante, cerveja, salgadinho e aos domingos frango a passarinho.

4 Comments:
Vai se foder, Paulão...
MUITO FODA!!!
4:02 PM
triste fato, me fez lembra a história do Toninho Eguero"
abraço!!
10:11 PM
Eu poria na última página da Veja SP. No lugar do Walcyr Carrasco. Quem é Walcyr Carrasco?
6:49 PM
Depois de tanto tempo, enfim, conseguiu terminar o texto prosopopéico sobre quero-queros. Parabéns.
9:09 AM
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