O blog mais despretencioso da América Latina

12/03/2004

Liberto

Voltei. não me sinto mais escravizado por textos que devem agradar a outrem. Posso mandar os meus. E lá vem pedrada, pra quem tiver saco.

Brilho aos olhos

Da van estacionada à porta do hotel saíam senhoras em seus melhores vestidos, perfumes e maquiagens. Os senhores pareciam se libertar de uma tortura, esticavam suas pernas e ajeitavam seus paletós, depois da viagem de 260Km sem ar condicionado. Um abuso! Elas e seus maridos recebiam ajuda dos manobristas para se proteger da chuva fina. Eram resgatados pelos homens com guarda-sóis, que os escoltavam até a porta de entrada para o jantar da ARA, Ação Riopardense de Amigos.

No lobby estavam os doze integrantes da Banda Veridiana sentados à mesa, que antecipava os aromas e cores que seriam servidos mais tarde aos convidados. Riopardense e saxofonista da banda, o sorridente Marcinho tratava de integrar as duas partes, apresentando sua família aos amigos músicos.

Alguns metros à frente o tesoureiro da entidade, com cabelos artificialmente escuros e lentes redondas, grandes e que deformavam seus olhos, após um breve cumprimento se apressa em alertar: “Antes, tem que pagar aqui.” O suficiente para suscitar algumas recordações: “O mesmo sem-educação de sempre. Nem falou ‘oi’ e já veio cobrando.”

O coquetel começava a ser servido. No começo do estreito corredor que levava ao salão, um senhor fazia as vezes de porteiro, atrás de uma mesinha. Dava os ingressos aos que já haviam pagado, e em cada ingresso escrevia o nome do convidado. “Paulo Lauria.” O senhor sorri, analisando o convidado com seus olhinhos apertados. “Você é o neto do Márcio, né?” Cinco passos adiante, no meio do corredor, outra mesa, outro senhor. Nessa o convidado deixava o papel, e tinha seu nome anotado em um caderninho. Depois de fichados e identificados duas vezes em um corredor de sete metros, os convidados em situação regular podiam começar a festa.

Bandejas repletas de canapés nada atraentes, e outras repletas de copos com, refrigerante, água, batidas e cerveja em uma temperatura não tão agradável, assim como o ar local. “É de quê?” “Laranja com maçã, e maracujá com laranja”. Mariza pegou da primeira, e ao final do segundo copinho questionou. “Acho que não é batida não. É só suco”. E era suco. Mas tinha aspecto de batida. As senhoras seguravam como se fosse batida, e apreciavam como tal, tomando goles que mal chegam a molhar os lábios, receosas da força do álcool.

Quatro senhoras cochichavam em um canto. Olhavam tímidas, e a de cabelo avermelhado, minutos depois, quando se aproximou da conversa, desferiu mais uma vez a pergunta, que ainda se repetiria várias vezes: “Você é o neto do Márcio, não é?” A resposta veio com um sorriso de quem percebe que não pára por aí, mas não tem muito mais do que um “Sou sim, eu mesmo” para responder. “Ah, eu sabia...” se orgulha a mulher.

Muitos não se viam há tempos, e libertavam beijos e cumprimentos sufocados durante anos. Assuntos mofados e lembranças distantes eram jogados nas rodinhas. A maioria dos presentes eram senhores e senhoras propriamente ditos, de São José do Rio Pardo. As minorias, filhos, genros e noras dos riopardenses mais antigos acabou por formar rodas menores, e menos entusiasmadas, com muito menos anos a serem lembrados. Cabelo e os efeitos do tempo sobre eles foi um assunto muito bem lembrado durante a noite. “O Marco Antônio está com o cabelo mais branco que o do tio Zé. Tem muito trabalho, está estressado”

“Paulinho, vem aqui”. Toninho conversava com um contemporâneo seu, e chamou o sobrinho-neto. “Foi feito pra você isso aqui, heim? Tem um monte de brotinho para você paquerar!” Riu da situação, tomou um gole de cerveja e apresentou: “É o neto do Márcio e da Marina.” “Mas parece mesmo o Márcio.”

Uma escada levava a um outro salão hermético, onde uma mesa em forma de L abrigava um incontável número de saladas e um número contável de pratos quentes, todos com nome e sobrenome. Quinze mesas redondas repletas de talheres grandes e pesados preenchiam o salão, salvo o espaço reservado para a banda. A disputa pelos melhores lugares, perto da banda e da comida, foi intensa e se pretendeu discreta, mas acabou não sendo. Paletós nas cadeiras, plaquetas dizendo “reservado” e bolsas, guiados por cochichos e estratégias tentavam salvar o conforto dos mais chegados. “Melhor não sentar aqui, tem a caixa de som, vai fazer muito barulho.” “Corre antes que aquela mulher se sente.”

Depois de todos sentados, alguns minutos foram necessários para que se quebrasse o jejum. Algum tipo de medo, vergonha ou insegurança quanto aos padrões de boa educação impediram os famintos de se servir. E como é de praxe, depois do primeiro a manada se senti à vontade para encher seus pratos, uma tarefa difícil, pois estes lembravam calotas brancas.

O repertório com Jazz, blues e MPB começou a ser executado pelas três flautas, dois saxofones, clarinete, trompete, bateria, baixo, guitarra e piano. Ninguém cantando, apenas Carlinhos regendo com a tenção que todo maestro demonstra aos olhos destreinados.

Com cabelos ainda grisalhos e camisa listrada em três cores indecifráveis e confusas, um certo amante da música se empolga, dança sozinho ao lado do pianista, cantarola as melodias e parece não se lembrar dos pratos, dos conterrâneos e dos amigos saudosos. Só tinha ouvidos, pernas e sorrisos para a música. Eventualmente se inclinava por trás do ombro esquerdo do pianista loiro e de óculos, que permanecia inerte e compenetrado, mas possivelmente maldizendo o admirador equivalente ao fã que grita “toca Raul” em shows de rock.

Na verdade ninguém dedicou muito tempo à refeição, e logo muitos estavam em pé, circulando pelas mesas dos amigos. Marina, de 72 anos foi uma dessas, mas pouco depois de cruzar seus talheres sobre o prato, mais um de cabeça grisalha aparece, se aproxima tímido e em pé mantém alguns poucos minutos de conversa com ela. Despede-se e some entre as mesas. “Foi meu aluno no jardim da infância Eu tinha uns vinte anos, e nunca mais tinha o visto. Disse que tem muita admiração por mim.”

Aos poucos as câmeras fotográficas vão perdendo sua timidez. Com quilos de maquiagem no rosto, uma senhora miúda de vestido preto disparou seu flash despudoradamente sobre a maioria das mesas e convidados, lembrando os profissionais contratados somente para fazer isso, e que trazem consigo um infinidade de rolos de filme. Em uma das mesa disparou sete vezes, sem ao menos dizer uma palavra, e obtendo como resposta apenas sorrisos de lábios juntos, provavelmente falsos. Foi-se para outra mesa. Ao julgar a distância segura, Márcio liberta uma observação reprimida: “O cabeleireiro dela... Sempre tentando inovar..” Marco sorri e completa. “Cabeleireiro cubista...”

Quando a maioria já estava satisfeita, aparece, eufórico, um riopardense um tanto quanto ilustre, o Nuno. Há anos não via seus conterrâneos. Abraça e beija os mais amigos, olha-os nos olhos como se tentasse enxergar as pessoas do passado. Tira fotos com eles. A mulher do penteado cubista, ao vê-lo, prepara sua câmera para fotografar a seu lado. Decepciona-se. O filme acabou. Mesmo assim abraça o amigo por um lado, outra o abraça pelo outro e uma câmera qualquer os fotografa. Confusa e incerta quanto à tecnologia, pede envergonhada pela foto. “A sua não é de filme, né? Como é que faz? Dá pra me dar a foto depois?” O fotógrafo, mesmo sabendo dos procedimentos, passa a bola para a dona da máquina. “É dela. Fale com ela.”

O mais longo abraço de Nuno foi para Marina. Conversavam sobre os irmãos dela. “O Fernando se foi há uns dois anos. O Decinho está bem, sim...” Ele olhava na direção de suas mãos, que formavam uma concha à altura do peito, mas parecia não vê-las, e sim enxergar por trás delas. “Eu lembro de tudo. Aquele campinho do lado do rio, o futebol, as árvores... O Decinho era muito esperto, magrinho...”

Não tardou muito e Ana, a filha de Marina fez a apresentação: “Esse é meu filho” com os olhos pretos brilhantes Nuno abraça. “Que beleza! Olha a força!”

Exceto por alguns momentos de política, futebol, e finanças, e pelas minorias mais jovens, as lembranças foram o que sustentaram o jantar da ARA. Lembranças distantes, de pessoas que pareciam enxergar seus contemporâneos vinte anos mais novos, pelo menos. E mantinham sorrisos esperançosos acima de tudo.

Viram uma festa diferente da que o neto do Márcio viu.