Dor
Vestiu calça jeans. Tênis? Claro. Nunca usava sapatos. A garoa impedia a caminhada. Carro, então. Foi. No fundo sabia que não deveria, mas foi.
Lá dançavam; ele quase nada. Bebiam; ele pouco. Sorriam; ele se esforçava.
Aquela moça estava lá. Bebia dançante e sorridente, como pedia a ocasião. Ele evitava seus olhares, mas estes o perseguiam. Ir embora? Indelicado... Ficou, apreensivo.
O encontro foi inevitável. No canto da pista, falaram sobre o tempo, esportes, jantares, família, amigos. Não escaparia. Amor seria o próximo tópico, o mais esperado por ela e indesejado por ele.
Generalidades e subterfúgios não contiveram o avanço: os dois entraram em pauta.
Ela tinha os olhinhos verdes cheios e trêmulos. Ele, a mão no queixo e os olhos ardendo. Ela tinha vontade, estava ansiosa e temerosa. Ele olhava para o nada e mexia em seu chaveiro. Ela arfava, insistia jogando suas ultimas cartas, às vezes incompreensíveis. Ele lamentava, pensava, não tinha muito a dizer.
A moça recebeu um beijo na testa, percebeu seus esforços inúteis e chorou.
Sentindo-se mal, ele pagou sua conta, saiu de lá e caminhou cabisbaixo na chuva até o carro. Tirou os tênis molhados e dirigiu até sua casa. Com ajuda de um cd, desejou sentir a dor daquela moça, mas temeu nunca senti-la.

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